Simone Dutra
Quarta-feira, 23 de agosto de 2006
DD – Você defende que não adianta falar em solucionar os problemas da saúde sem antes resolver a questão da dívida pública do país. Por que?
Simone – Os impostos arrecadados no país vem sendo comprometidos com os contratos do governo brasileiro com o FMI, no pagamento dos altos juros da dívida. O Lula, por exemplo, até o final do mandato, terá pago U$ 520 bilhões. Isso é muito dinheiro, e se você for fazer uma comparação com o que é investido no serviço público, na geração de empregos, na reforma agrária, é infinitamente menor. Então a grande prioridade do Governo Lula, a exemplo também do Governo Fernando Henrique, os governos neoliberais, é o pagamento da dívida.
DD – Então, para o PSTU, ao invés de o governo servir à população está pagando aos banqueiros, é isso?
Simone – Exatamente. É o que Heloísa Helena coloca como o compromisso do governo com os banqueiros. São banqueiros nacionais e banqueiros internacionais. É uma agiotagem, um círculo vicioso, uma dívida impagável. O país já pagou muito dinheiro e essa dívida só cresce. A população tem que saber que quando falta medicação, que quando falta médico no posto de saúde, quando falta professor, além da falta de investimentos, também tem essa questão. O Governo Lula vem cortando verba na saúde, na educação, na segurança, para fazer superávit primário. Ou seja, fazer aquela poupança mensal para o pagamento dos juros da dívida.
DD – Esses contratos foram firmados pelo governo dentro da ordem vigente. Ao defender isso, o PSTU também não estaria defendendo a quebra de contratos que gerariam uma insegurança jurídica no país?
Simone – Nós defendemos sim a quebra de contrato. Porque a gente considera que a obrigação que o governo tem é com os trabalhadores. A grande divida que o governo tem é com eles. A questão de gerar emprego, de gerar renda. Não adianta ficar dando bolsa-esmola para os trabalhadores que não muda a vida deles. Receber R$ 15 por filho é uma esmola. Isso não muda a dignidade, a vida, a moradia das pessoas. É uma quebra de contrato, é sim mas os recurso que se economizaria com o não pagamento da dívida, ele é suficiente pra fazer girar a economia do país.
DD – A nossa também economia recebe muitos investimentos externos. Ao quebrar esses contratos a gente não provocaria um problema econômico insanável?
Simone – Isso é alardeado pela mídia, que o país quebra se houver quebra de contrato com os banqueiros. O PSTU defende um plano econômico, que os governos se voltem para desenvolver a economia interna. Obviamente que as relações exteriores elas existem e vão continuar existindo sim, só que dentro de uma nova ordem. A prioridade do governo deve ser o investimento na economia interna. Para isso o PSTU defende o plano de obras públicas. Se houvesse a suspensão do pagamento da dívida, por exemplo, poderiam ser construídas mais de seis milhões de casas, ao custo de R$ 21 mil, cada uma. Isso geraria emprego e resolveria boa parte do problema de moradia. Poderia se dobrar a verba da saúde, dobrar a verba da educação, assentar um numero considerável de famílias, isso é uma coisa completamente possível. Isso vai estar gerando economia no campo, gerando economia nas cidades, fazendo reforma urbana, dando boas condições de moradia, de habitação. Essa retomada, esse investimento na economia interna, ela tanto geraria emprego, como estaria resolvendo questões essenciais da população. Então, o Brasil é rico, o trabalhador brasileiro produz muito. Mas o cidadão brasileiro paga uma das maiores taxas de impostos do mundo. Nós contribuímos muito com imposto, principalmente os trabalhadores, porque você sabe que as grandes empresas pagam muito menos, os trabalhadores é que ficam realmente com a maior carga. E esse recurso não está voltando, ele está sendo utilizado para pagamento da dívida, assim como se utilizam os recursos da previdência, e os lucros da Petrobrás e de algumas outras empresas estatais que ainda sobraram. É necessário dar uma virada nessa relação, não adianta o senhor Lula ir pra televisão dizer que vai resolver e continuar com a mesma coisa. O Lula bateu o recorde de superávit primário, foi mais elogiado pelo FMI e pelos banqueiros que o Fernando Henrique. Hoje a burguesia nacional e internacional defende o Governo Lula. Isso porque a prioridade do governo dele foi atender às necessidades empresariais. Ele se voltou contra os trabalhadores.
DD – O PSTU “saiu de uma costela” do PT, que avaliação você faz do atual governo federal?
Simone – O PSTU, nós não existíamos enquanto partido, existíamos como corrente dentro do PT, como a Convergência Socialista. Em 1990, quando houve o escândalo de Collor, internamente, nós defendemos o “Fora Collor”, e nós fomos expulsos do PT porque contrariamos naquele momento uma decisão do partido. Por que o PT não queria o “Fora Collor”? Porque o grande projeto daquele partido já naquele momento era chegar ao poder através das eleições. E sabendo-se que eles estavam investindo em Lula, eles não queriam enfrentar também lá na frente o impeachment de Lula. Então eles queriam se mostrar afáveis, sensíveis...
DD – Aí, não está uma incoerência do PSTU? A corrente não saiu do PT porque não queria se submeter às eleições e você não é candidata ao senado?
Simone – Não. Nós fomos expulsos do PT porque defendemos naquele momento o “Fora Collor” e a direção do PT não queria. Nós não condenamos o fato de Lula ter chegado ao poder através das eleições. Muito embora nós achamos que as eleições não resolvem o problema. A gente acha que é necessário luta para mudar a vida dos trabalhadores. As eleições infelizmente, pela forma como ela é colocada, pela forma como é organizada, pelo poder econômico que a define, ela não resolve. A cada dois anos nós temos eleições e a população continua da mesma forma. O que a gente diz é que o Lula, mesmo tendo ido ao poder pelas eleições, ele poderia sim ter desenvolvido seu governo com o apoio da população. Mas o que é que ele fez? Ele preferiu virar as costas para os trabalhadores, fazer reformas, pagar os juros em dia da dívida, e compor com um congresso corrupto.
DD – Como é que o PSTU vai enfrentar a cláusula de barreira que poderá varrer do mapa uma dezena de legendas que fazem parte do cenário partidário nacional?
Simone – Nós vamos ter uma batalha contra. Mas a gente sabe que há uma grande articulação com o poder dos partidos maiores, que representam a burguesia. Infelizmente vai ser um atraso no processo de participação, vai estar se calando a voz daqueles que discordam, e vai ficar mais difícil o dialogo e a informação. Mas o PSTU existe independente das eleições. Nós temos vida ativa, e não existimos para as eleições. Existimos para transformar a sociedade, participamos das eleições porque sabemos que é o momento em que a sociedade se volta para escutar, é o momento oportuno para fazer denuncias, para informar, passar nossa mensagem e nossa política. Por isso que a gente participa, e também queremos sim ocupar os espaços no parlamento, para que possamos colocar nossa voz à disposição da luta, dos movimentos sociais. É pra isso que a gente entende que é importante ter um cargo no parlamento ou no poder executivo para estar à disposição da luta dos trabalhadores.