Casciano Vidal
Sexta-feira, 25 de agosto de 2006
DD – Como se faz uma pesquisa?
Casciano – A pesquisa começou a ser usada mercadológicamente a partir dos anos 40. Ela teve um grande impulso na década de 60, e aqui no Brasil finalmente a partir dos anos 80, com a redemocratização do país. Aqui em Natal, a gente teve a felicidade de ter sido o primeiro instituto de pesquisa criado na cidade. O Instituto Índice de pesquisa surgiu em 1986. E de lá pra cá, vários outros profissionais estatísticos, jornalistas, sociólogos, passaram a criar também seus institutos de pesquisa, e em relação à proporção e tamanho, o Rio Grande do Norte é o estado que tem mais institutos de pesquisa do país. Eu sou muito feliz com isso porque a gente plantou uma semente que deu certo. Agora em relação à diferença de números que surgem nas pesquisas dos diversos institutos que realizam, eu creio que seja por causa da metodologia. Cada instituto tem sua metodologia. O Ibope por exemplo que apresentou esses últimos números com Garibaldi tendo 49% das intenções de voto, Wilma 41% e apenas 3% indecisos, eu creio que seja por causa da metodologia. Eu acho que a metodologia usada pelo Ibope talvez apresente o resultado bruto da rua como os votos validos, o que reduz sensivelmente o numero de indecisos.
DD – Mas, na prática, como é que a pesquisa é feita? Como é o trabalho do pesquisador?
Casciano – Hoje inclusive nós vamos ter uma reunião de instrução com 50 pesquisadores e a gente está abrindo essa reunião para a imprensa e para os representantes de partido que queiram saber mais sobre como é feita a pesquisa. Mas o primeiro passo é definir o seguinte: o que é que você quer saber e de quem você quer saber. No caso da pesquisa eleitoral você quer saber a intenção de voto dos eleitores.
DD – Digamos que eu sou candidato e quero uma pesquisa, como é que começa o processo?
Casciano – Aí, a gente vai fazer o planejamento da pesquisa. Nesse planejamento a gente vai descobrir quantos eleitores existem no Estado e saber onde eles estão para poder calcular a mostra e distribuí-la bem. Depois vamos à redação do questionário que vai ser aplicado, que é uma peça importantíssima, pois garante a fidedignidade das respostas. Se eu não souber perguntar o eleitor não vai saber responder, se eu perguntar de maneira enviesada ele vai responder de maneira enviesada.
DD – E em relação às perguntas do questionário, o pesquisador pode induzir o resultado?
Casciano – Até pode, mas eu acredito que os institutos não fazem isso. Quando acontece eu acredito que é por uma falha técnica na elaboração do questionário. Porque como tudo que o ser humano faz, podem ocorrer falhas. Graças a Deus, nunca aconteceu com o nosso instituto. Desde que se permitiu publicar pesquisas sobre eleições no Brasil, nós publicamos pesquisas e de 1992 até hoje, não erramos em nenhuma eleição. Na eleição de 1992, disputaram a prefeitura de Natal Henrique Alves e Aldo Tinoco. O único instituto que disse que Aldo poderia ganhar foi o Instituto Índice. Todos os outros davam a vitória de Henrique consagrada. Depois a eleição de Garibaldi para o governo contra Lavoisier, nossa pesquisa indicava 40% de votos para Garibaldi, e 31% para Lavoisier. Deu 39% para Garibaldi e 31% para Lavoisier. Na eleição de 96 teve um bate boca muito grande aqui em Natal , e teve uma mesa redonda na rádio Poti na quinta-feira que antecedeu a eleição, e no dia anterior teve um debate na Cabugi onde Fátima Bezerra se saiu muito bem e Wilma estava meio insegura, foi mal no debate. Todos os jornalista analisando a campanha disseram que era a grande virada, que Fátima venceria as eleições. Nas pesquisas da índice pelo estudo de tendências que fazíamos, Wilma ganharia a eleição por 3% dos votos. Nosso companheiro Augusto Fontenele colocou na coluna “bastidores” do Diário de Natal, que todos os jornalistas que estavam no debate foram unânimes em afirmar que Fátima ganharia as eleições, mas Cassiano do Instituto Índice, garantiu que Wilma venceria com diferença de 3% dos votos. Então foi confirmado os 3% e eu pedi a ele no dia seguinte, uma nota registrando porque foi exatamente o que nós prevíamos. Então vieram as outras eleições e a gente sempre acertou. Em 2002 o único instituto que publicou uma pesquisa com Wilma à frente dos outros candidatos foi o Índice. Foi uma pesquisa que fizemos para o Jornal de Hoje. Isso foi ainda em fevereiro, e depois disso vários institutos publicaram pesquisas com Fernando Bezerra e Fernando Freire como vencedores, mas quem ganhou a eleição foi Wilma de Faria. Em 2004 teve aquela celeuma toda em torno das pesquisas, e a nossa dava 2,7% de maioria para Carlos Eduardo e ele ganhou com maioria de 2,9%.
DD – Quem contrata a pesquisa pode escolher os locais? Um político por exemplo pode pedir uma pesquisa e escolher um local onde ele é bem votado para ser aplicado o questionário?
Casciano – Existe sim quando o cliente quer se enganar. E eu digo logo, quem quer se enganar não precisa de pesquisa. A pesquisa é exatamente para tirar o engano. Você quer tirar o engano contrata uma pesquisa séria, bem feita, correta, coerente, que respeite todo o código de ética da profissão e que seja feita com isenção. A isenção de um cientista. Um cientista não pode ter um preferência quando vai fazer um experimento. A pesquisa de opinião tem que retratar a realidade, e depois você trabalha em cima dessa realidade para trabalhar a seu favor se tiver competência para isso.
DD – Muito se fala que alguns institutos, dependendo de quem contratou, mexem na margem de erro, no numero de indecisos, isso ocorre realmente?
Casciano – Eu não acredito que algum dono de instituto ou algum responsável técnico por alguma pesquisa faça isso em função do excessivo zelo que a maioria dos institutos tem pela questão ética. Mas há muitas conversas que surgem, na minha opinião são boatos, eu não acredito não, Diógenes.
DD – O que é mais importante para analisar o resultado de uma pesquisa?
Casciano – Em se tratando de eleições é muito importante a gente o perfil do eleitorado porque a gente divide o eleitor em faixas etárias. Quando a gente trabalha com faixas etárias, a gente sabe que o primeiro voto é aos 16, 17 e 18 anos. Depois vem o pessoal que tem está no segundo voto, e a gente percebe que o eleitor tem o comportamento mais ou menos parecido de acordo com sua faixa etária. E é também o que acontece na vida, o quarentão já pensa diferente de quem tem 20 anos. Então é importante analisar isso. Agora a rejeição também é um aspecto importantíssimo. Porque aquele político que tem rejeição elevada, porque dificilmente ele conseguirá êxito. A não ser quando há uma bipolarização entre dois candidatos que a rejeição para os dois tende a se elevar. Porque o lado que vota em um, rejeita o outro e vice-versa.
DD – Essa semana a Gazeta do Oeste ia publicar uma pesquisa da Índice, ela vazou para alguns jornalistas, inclusive a gente publicou em primeira mão no Blog do Diógenes, e ela não vai mais ser publicada?
Casciano – Olha, nós fazemos a pesquisa para um cliente, e é ele quem decide o que fazer com o trabalho. Nós entregamos o trabalho ao jornal. Eu nem posso afirmar com certeza qual foi o resultado porque já entreguei o relatório e não está aqui comigo. Mas se as pessoas quiserem saber qual o resultado que mais se aproximou, de outras institutos, eu posso afirmar que esses números do Ibope estão bem razoáveis.
DD – Na sua opinião a campanha está indefinida ainda?
Casciano – Eu acho que para o Governo do Estado nos já temos um processo de consolidação, de sedimentação do resultado. Eu consideraria que está confirmado em 75 % o resultado será esse. A vantagem é de Garibaldi, só um acidente de percurso pode modificar essa situação.
DD – E para o senado?
Casciano – Para o senado a situação está totalmente indefinida.
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