DD - Como é que você está vendo aí essa reta final da campanha e como você analisa essas últimas pesquisas?
George – Já se previa que as eleições este ano estaria polarizando dois projetos a partir do quadro nacional, que é o projeto em disputa. A reeleição de Lula para o Brasil continuar nesse processo de avanço democrático, de reafirmação da soberania nacional. E o outro projeto que visa voltar ao que nós já passamos no Brasil, o que o neoliberalismo implantou no Brasil nos últimos 20 anos.
DD – Os último escândalos aí de mensalão, sanguessugas, não mancharam o programa do PT, desse governo que aí está e que o PCdoB apóia?
George – Não tenha dúvida de que vários fatos permearam e permeiam esse processo. Mas acho que o Governo Lula tem enfrentado esse problema muito de frente. Lula respondeu muito bem a esses questionamentos quando perguntava se o que aumentou no governo dele foi a corrupção ou a investigação. E os números aí mostram que quase 90% dos casos de corrupção de pessoas influentes, de alto nível social, a maior parte deles tem no mínimo 20 anos que vinham acontecendo. É o modus operandi da corrupção no Brasil há décadas.
DD – Mas o fato de boa parte do governo ter caído, assim com boa parte dos dirigentes do PT que também caíram, isso não complica? O presidente disse que não sabia de nada, então isso não mancha a imagem do governo?
George – Eu acho que o povo está respondendo isso nas intenções de voto ao presidente Lula. Na medida em que Lula diz que mesmo que corte na própria carne é preciso investigar a fundo e punir os culpados, eu acho que de certa maneira você meche com a base do governo, na medida em que o mensalão também atingir partidos aliados. Atinge, não tenha dúvida que atinge. Mas eu acho que o governo vai superando, porque se você observar, desses três setores da política brasileira dos últimos 200 anos, você tem essa elite entreguista, e tem a elite nacionalista. A elite nacionalista defende o Brasil soberano, as expressões desse movimento foram Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, João Goulart. Qual foi o tratamento que o capital estrangeiro deu a esses expoentes da política brasileira? Jânio Quadros se elegeu com a vassoura contra a suposta corrupção de Juscelino. Getúlio foi levado ao suicídio devido ao suposto mar de lama. Então a elite tem uma tradição golpista e está surpresa porque Lula não sucumbiu a isso. A população brasileira na sua sabedoria então está respondendo, que a questão não é da moralidade , é do centro política. Se tem problemas vamos investigar e vamos punir. O PC do B está muito à vontade com isso. Com certeza nos investigaram e não tem sequer um parlamentar nosso envolvido com qualquer tipo de acusação dessa.
DD – O PC do B apóia Lula no plano nacional e aqui no Estado apóia Wilma. O partido também está a vontade fazendo parte deste governo?
George – O PC do B no Governo Wilma integra uma responsabilidade muito grande que é a política fundiária, e tem feito uma parceria muito importante com o governo federal. Quando o ministro Miguel Rosset teve aqui em Assu, em março de 2005, ele reconhecia que o melhor programa de crédito fundiário do Brasil, é o Rio Grande do Norte. Experiências internacionais inclusive já passam a buscar parcerias conosco a partir desse nosso trabalho à frente da secretaria de reforma agrária que o secretário Canindé de França está à frente. E nós nos sentimos responsáveis por esse sucesso. Nós fomos buscar nos movimentos sociais o suporte para este nosso trabalho. Acho portanto uma parceria importante do PC do B com o Governo Wilma, assim como a gente faz no plano nacional , nós fazemos aqui no nosso Estado. Contribuímos com o nosso esforço, aprendendo com o nosso povo a responder a esse novo momento, inclusive vitalizando uma secretaria que não tinha operacionalidade nenhuma.
DD – Voltando às pesquisas, você acha que a candidata Wilma virou o jogo pra cima de seu principal adversário Garibaldi?
George – Haviam dois elementos que estavam presentes desde as primeiras análises no final de maio, início de junho, quando a diferença era muito grande, diziam que era 23 pontos. Um é que um governo bem aceito, e essa aceitação não era transferida para as intenções de voto, era um elemento muito objetivo e muito concreto que poderia ser trabalhado.
DD – E muita não entendia um governo bem avaliado que tinha uma aceitação de 60%, a candidata tinha apenas entre 20 e 30%. Se atribuiu isso inclusive à problemas no marketing. Como é que você avalia isso?
George – Eu sou leigo para falar de marketing, mas uma coisa me chamou atenção. Em várias partes do Estado, muita gente está ligada em parabólicas e não acompanha fatos importantes da política do Estado. Também se o marketing do governo trabalhou bem essa questão anteriormente. E o outro elemento é a questão de você vincular com um projeto. Educa mais o eleitor quando você se vincula a um projeto. As pessoas não estão na política por um passe de mágica, estão em função de um projeto. Por mais que isso fique difícil de visualizar numa eleição que tem cinco votos, mas se você observar com cuidado você vai ver que é um projeto que está em disputa com outro projeto.
DD – Você sempre estudou e discutiu a questão da região metropolitana, como é que essa questão está sendo tratada hoje?
George – No caso da região metropolitana de Natal, ela compreende nove municípios: Natal, Extremoz, Ceará Mirim, São Gonçalo do Amarante, Macaíba, Parnamirim, Nísia Floresta, São José de Mipibu e Monte Alegre. Essa região tem 5% do território físico do Estado e abriga 42% da população do Estado, é dado significativo. Também 37% do eleitorado está nessa região.
DD – E todos esses municípios já estão integrados nessa região metropolitana?
George – Estão porque a integração se dá através de uma lei, na verdade a vida vai integrando. O Rio Grande do Norte é pioneiro numa questão que eu acho fundamental. Há exatos dois meses a professora Tânia Barcelar coordena um projeto que é o plano estratégico de desenvolvimento sustentável da região, com a sua equipe da UFPE juntamente com a professora Livramento aqui da UFRN, que vem trabalhando essa questão e trazendo elementos importantes. Não ações de governo, mas ações de Estado. Identificar os maiores problemas...
DD – E quais são os maiores problemas?
George – Todas as regiões metropolitanas do Brasil tem alguns problemas em comum. É a cara do Brasil. O que acontece nessas regiões é que lá estão as maiores oportunidades. As pessoas vieram para essa região porque não tinham oportunidades nesses últimos 50 anos. Inverte o perfil cidade – campo no Brasil . O país que era essencialmente rural passa a ser fundamentalmente urbano com 84% da população morando nas cidades. Então essa inversão se dá pela falta de políticas para manter as pessoas no campo. Aí diante disso você tem as maiores oportunidades aqui na região metropolitana de Natal, e ao mesmo tempo os maiores problemas. As maiores universidades, e em Natal 78 mil analfabetos. Na questão da renda você tem aqui os maiores salários e o desemprego altíssimo. Se pegarmos pela ONU, o pobre é quem ganha até 60 dólares por mês, e o miserável é quem ganha a metade disso. Então você pega os miseráveis de Natal , dá 86 mil pessoas. Se você segregasse esse total numa cidade seria a 4° maior cidade do Rio Grande do Norte. Então você tem as duas faces, problemas de toda a natureza. Nos transportes por exemplo, enquanto você tinha há 15 anos 43 mil carros em Natal, hoje você 207 mil veículos registrados na cidade. Quer dizer, a crise de mobilidade urbana é uma expressão dessa crise das cidades. Isso se reflete no saneamento, na habitação, na mobilidade urbana, tento é que o Governo Lula enxergando isso, criou o Ministério das Cidades, e o Governo Wilma se integrou nesse processo com a conferência das cidades. E nós queremos contribuir com a gestão metropolitana, sem que isso signifique perder poder. São questões que precisam ser solucionadas e ao contrário do que muitos pensam que o prefeito vai perder poder, pelo contrário, é delegar poder para fortalecer o exercício desse poder .