Política
26/06/2026
Confesso que demorei a acreditar no vídeo de Michelle Bolsonaro descendo o malho no enteado Flávio Bolsonaro.
Como muita gente, imaginei que fosse mais uma peça produzida por inteligência artificial. Não era.
Ao tornar pública uma conversa privada e expor detalhes de um telefonema em que diz ter sido humilhada pelo senador, Michelle fez muito mais do que um desabafo familiar. Levou para o centro da pré-campanha presidencial um conflito que dificilmente ficará restrito às relações domésticas dos Bolsonaro.
O gesto chama ainda mais atenção porque ocorreu justamente no momento em que Flávio tenta virar a página do desgaste provocado pelo escândalo do Banco Master e pelas revelações envolvendo o financiamento do filme Dark Horse.
A rápida resposta do senador, com um pedido público de desculpas, mostra que ele percebeu o tamanho do estrago. Mas, em política, algumas crises produzem efeitos que um vídeo de reconciliação dificilmente consegue apagar.
Nos bastidores do PL, poucos acreditam que Michelle tenha ignorado o impacto político de sua manifestação. A leitura que prevalece é que o vídeo enfraquece a autoridade de Flávio justamente em dois dos segmentos onde ela exerce maior influência: o eleitorado feminino e o público evangélico.
Também não passa despercebido que Michelle continua sendo apontada por aliados como um nome competitivo para uma eventual candidatura presidencial, contando com simpatizantes importantes dentro do partido e entre lideranças religiosas.
Há ainda quem enxergue, na crise, um capítulo da disputa por influência dentro do PL. Nos bastidores, circula a avaliação de que o presidente nacional da legenda, Valdemar Costa Neto, não veria com maus olhos o enfraquecimento da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro e a ascensão de Michelle como alternativa do partido ao Palácio do Planalto. Nesse cenário, o desgaste de Flávio inevitavelmente alcança o senador Rogério Marinho, responsável pela coordenação de sua pré-campanha presidencial.
Michelle poderá gravar quantos vídeos quiser dizendo que o episódio ficou para trás. "Vamos todos trabalhar juntos para derrotar o atual desgoverno. Não há briga, nem competição", afirmou.
Politicamente, a impressão é outra. A exposição pública da briga rompeu a imagem de unidade que o bolsonarismo tentava preservar e abriu uma frente de desgaste que dificilmente será esquecida durante a campanha.
é jornalista e radialista do Rio Grande do Norte, com mais de 40 anos de carreira. Formado em Comunicação Social pela UFRN e em Direito pela UnP, atuou em diversos veículos locais e nacionais, como Tribuna do Norte, Diário de Natal, TV Globo, TV Record Brasília, SBT, Band e nas rádios 98 FM, 91,9 FM e 103,9 FM. Foi diretor-geral da TV Assembleia Legislativa do RN, coordenador de Comunicação da Potigás e assessor da Presidência da Petrobras. Atualmente, assina coluna política no jornal Agora RN e edita e apresenta o programa Contraponto, na rádio 96 FM.
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