Política
01/06/2026
A casa caiu para o esquema que mistura política, cinema e dinheiro público. O deputado federal Mário Frias (PL) e a ONG Instituto Conhecer Brasil (ICB) viraram alvos de investigações pesadas.
O STF (Supremo Tribunal Federal) e a Polícia Civil de São Paulo (PC SP) apuram o desvio de verbas que deveriam financiar projetos sociais e de tecnologia. No entanto, o dinheiro foi parar em contas de aliados e até na produção de um filme.
Mário Frias destinou R$ 1 milhão em emendas para o ICB realizar um projeto de empreendedorismo jovem no interior paulista. O problema é que o plano simplesmente não saiu do papel.
O responsável técnico do projeto, Kayo Azevedo, confirmou o cano à equipe de reportagem do Estadão.
“Não foi executado em Pirassununga. Não foi executado por mim. Fiquei sabendo que não iria mais rolar aqui, não seria eu que executaria. Ninguém deu satisfação ou falou nada”, afirmou.
A prestação de contas da ONG revela para onde a dinheirama realmente escorreu. A maior fatia, de R$ 400 mil, foi para a Editora Dinâmica comprar kits escolares que nunca chegaram ao destino.
O dono da editora possui ligações estreitas com uma doadora de campanha de Frias. Outros R$ 300 mil foram repassados para outra empresa de material pedagógico digital que ignora as tentativas de contato.
Pamella Cristiane Dias, dona dessa segunda empresa, chegou a agradecer publicamente a outro envolvido em postagens na internet.
“Nossa gratidão especial à HD Cultural, que acreditou nesse projeto e tornou isso realidade”, escreveu.
Para fechar a conta, o ICB usou R$ 80 mil da emenda para pagar o defensor pessoal do próprio deputado federal. Fabio Lago Meirelles, que defende Frias em nove processos judiciais, embolsou o valor por serviços jurídicos e contábeis.
Além disso, a entidade pagou R$ 50 mil a Marcelo Machado, que é dirigente de outra associação da dona da ONG. Essa manobra é proibida por lei devido ao evidente conflito de interesses.
Operação Wi-Fi: o rombo de R$ 157 milhões
Se a emenda parlamentar já assusta, o contrato com a Prefeitura de SP é ainda mais escandaloso. A Polícia Civil deflagrou a Operação WI-FI para coibir fraudes em um contrato de R$ 157,1 milhões da ONG com a Secretaria Municipal de Inovações e Tecnologia.
A parceria previa a instalação de 5 mil pontos de internet nas periferias paulistanas. Contudo, os investigadores descobriram que pelo menos R$ 26 milhões foram pagos sem nenhuma contraprestação de serviço.
O ICB cobrou R$ 1,8 mil mensais por ponto de Wi-Fi, enquanto contratos anteriores custavam apenas R$ 230. A ONG nem sequer possuía experiência no setor de telecomunicações e foi a única participante do chamamento público.
O ponto central que une esses escândalos é a produção do filme “Dark Horse”, que narra a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro. A dona do ICB, Karina Ferreira da Gama, também comanda a produtora do longa-metragem, onde Frias atua como roteirista.
O ministro do STF, Flávio Dino, apura se R$ 2 milhões em emendas de Frias financiaram a obra. A polícia suspeita de lavagem de dinheiro e confusão patrimonial entre a ONG e a produtora Go Up Entertainment.
A produção do filme tem bastidores nebulosos. Mais de 90% do orçamento veio do banqueiro Daniel Vorcaro, detido por fraudes bilionárias.
Mensagens obtidas pela Polícia Federal indicam que o senador Flávio Bolsonaro negociou mais US$ 24 milhões com o banqueiro mesmo após a sua prisão. O COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) agora analisa as contas dos envolvidos.
Até o momento, Mário Frias e Karina Gama não se pronunciaram sobre as graves acusações. O Ministério da Ciência e Tecnologia cobrou explicações da ONG, cuja prestação de contas oficial está totalmente atrasada.
é jornalista e radialista do Rio Grande do Norte, com mais de 40 anos de carreira. Formado em Comunicação Social pela UFRN e em Direito pela UnP, atuou em diversos veículos locais e nacionais, como Tribuna do Norte, Diário de Natal, TV Globo, TV Record Brasília, SBT, Band e nas rádios 98 FM, 91,9 FM e 103,9 FM. Foi diretor-geral da TV Assembleia Legislativa do RN, coordenador de Comunicação da Potigás e assessor da Presidência da Petrobras. Atualmente, assina coluna política no jornal Agora RN e edita e apresenta o programa Contraponto, na rádio 96 FM.
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