Política
01/04/2026
O lançamento da pré-candidatura presidencial de Ronaldo Caiado escancarou um paradoxo que pode definir — ou limitar — o seu projeto nacional: antes de enfrentar adversários, terá de vencer o próprio partido.
O PSD chega a 2026 como uma federação de interesses regionais, não como um bloco coeso. Há alas que orbitam o governo Lula, outras que flertam com Flávio Bolsonaro, e ainda segmentos simpáticos a Romeu Zema. Caiado, portanto, não herda uma candidatura — herda uma encruzilhada.
E o primeiro teste veio no próprio ato de lançamento.
Realizado em São Paulo, o evento teve baixa densidade política fora do eixo local. Faltaram governadores, sobrou silêncio.
Nas redes sociais, o constrangimento foi ainda mais eloquente: os 13 pré-candidatos do partido aos governos estaduais ignoraram a candidatura. Entre os sete governadores da legenda, quatro sequer registraram reação pública.
O silêncio, em política, raramente é neutro.
Eduardo Leite, que disputou internamente a vaga, não apenas se manifestou, como o fez em tom de advertência: a escolha, segundo ele, “tende a manter esse ambiente de polarização radicalizada que tanto limita o nosso país”. Traduzindo: não é consenso — é concessão.
Já Ratinho Junior, que era o favorito até recuar para cuidar da própria sucessão no Paraná, foi o único a se manifestar publicamente a favor de Caiado.
Os demais — Marcos Rocha, Raquel Lyra, Fábio Mitidieri e Mateus Simões — preferiram o conforto da omissão.
No Rio Grande do Norte, o silêncio também falou alto. A senadora Zenaide Maia, filiada ao PSD e alinhada ao governo Lula — onde ocupa uma das vice-lideranças —, não deve mover esforços em favor de Caiado, um candidato situado no campo oposto ao seu.
Zenaide simboliza o dilema central do partido.
Porque, no fim das contas, a questão não é apenas se Caiado conseguirá crescer. É se o PSD permitirá que ele cresça.
Sob o comando de Gilberto Kassab, o partido costuma operar no pragmatismo: cada estado decide seu rumo. Ganha capilaridade, perde unidade. Será assim também na eleição presidencial?
Se essa lógica prevalecer, Caiado corre o risco de ser candidato de si mesmo — com estrutura, mas sem partido.
E eleição presidencial exige mais do que isso: exige unidade, ou ao menos sua encenação.
Por ora, Caiado tem o anúncio. Falta-lhe o coro.
Sem coro, não há campanha — há monólogo.
é um jornalista e radialista do Rio Grande do Norte, com mais de 40 anos de carreira. Formado em Comunicação Social pela UFRN e em Direito pela UNP, atuou em vários veículos importantes locais e nacionais (Tribuna do Norte, Diário de Natal, TV Globo, TV Record Brasília, SBT, Band e rádios 96 FM, 98 FM e 91.9 FM). Foi diretor-geral da TV Assembleia Legislativa do RN. Foi coordenador de comunicação da Potigas, e assessor da presidência da Petrobras.
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