Brasil
22/04/2026
O avanço das energias renováveis no Nordeste esbarra hoje em um problema estrutural que começa a comprometer o próprio crescimento do setor: o curtailment, o corte forçado na geração de energia.
Na prática, trata-se de um paradoxo. Mesmo com condições naturais ideais para a produção eólica e solar, parte da energia gerada simplesmente não é aproveitada. O sistema elétrico não consegue absorver toda a produção — seja por limitações na transmissão, seja por desequilíbrios entre oferta e demanda.
O problema já se reflete nos planos de investimento. Empresas do setor avaliam reduzir a presença na região — hoje o principal polo renovável do país — e redirecionar projetos para outras áreas, mais próximas dos centros de consumo. A estimativa é de até R$ 38,8 bilhões em empreendimentos suspensos entre 2025 e 2026.
O cenário resulta de uma combinação de fatores. A demanda por energia cresce em ritmo mais lento do que o previsto. O curtailment se intensifica. E os custos operacionais aumentam, impulsionados pelo fim de incentivos fiscais e por novas exigências regulatórias.
No governo federal, a leitura é de que os subsídios que impulsionaram o setor no passado já não se justificam diante da consolidação das fontes renováveis na matriz elétrica. A prioridade passou a ser o reequilíbrio da política tributária, com o argumento de evitar distorções no sistema e impactos na conta de luz.
O setor, no entanto, reage com cautela — e começa a pisar no freio.
Sem uma sinalização mais clara do Ministério de Minas e Energia, os números indicam retração. Em 2025, 141 usinas devolveram outorgas, somando R$ 18,9 bilhões em investimentos cancelados. A Absolar aponta ainda R$ 5,9 bilhões que deixaram de ser aplicados na energia solar. Já a Abeólica estima cerca de R$ 14 bilhões em projetos eólicos suspensos.
Há um dado que sintetiza a dimensão do problema: o Brasil hoje desperdiça energia equivalente à produção da Usina de Belo Monte.
O gargalo não está na capacidade de geração, mas na infraestrutura para escoar e armazenar essa energia. A ampliação das linhas de transmissão e a implementação de sistemas de armazenamento — especialmente baterias em larga escala — são apontadas como caminhos para mitigar o problema. No entanto, iniciativas como o leilão de armazenamento seguem sem definição.
É nesse contexto que o Rio Grande do Norte ganha protagonismo — e preocupação.
O estado é um dos pilares da geração renovável no Brasil. Com cerca de 12,4 gigawatts de potência instalada, possui uma matriz elétrica praticamente limpa: 97,6% da capacidade vem de fontes eólica e solar. Na geração efetiva, o índice se aproxima de 99%.
A energia eólica é o principal ativo: são mais de 10 GW instalados, mais de 300 parques em operação e uma participação próxima de 30% na geração eólica nacional.
Esse desempenho coloca o estado entre os líderes do ranking brasileiro — atrás apenas da Bahia e à frente de Piauí e Ceará.
Mas essa posição também expõe o RN de forma mais direta aos efeitos do curtailment, colocando em risco a sua principal vantagem competitiva.
é um jornalista e radialista do Rio Grande do Norte, com mais de 40 anos de carreira. Formado em Comunicação Social pela UFRN e em Direito pela UNP, atuou em vários veículos importantes locais e nacionais (Tribuna do Norte, Diário de Natal, TV Globo, TV Record Brasília, SBT, Band e rádios 96 FM, 98 FM e 91.9 FM). Foi diretor-geral da TV Assembleia Legislativa do RN. Foi coordenador de comunicação da Potigas, e assessor da presidência da Petrobras.
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